O Real Sonho

1. Uma Trilha


Visão

Qual era a razão daquele momento em que despertei  os meus olhos para uma realidade em cores? Não sei como sou, não sabia qual o meu nome, estava começando a ser. Por um único sopro de vento que esbarrava nas folhas daquela árvore atrás da casa considerei que era um teste antes de começar a vida real. Não tinha sentimento era como se estivesse inativo, porém não estava dormindo, muito menos morto. Esse sonho esconde algo tão precioso que até os dias de hoje tenho ele em mente. Sabia que sonhos se repetem? É! Esse não se retomou nunca mais, poderia ser uma vida paralela.
Esse lugar em que me encontrava pode ser um outro mundo, recordo que fiquei observando o trem ir embora na hora percebi que eu era uma criança, ali tive o primeiro contato com um sentimento, que na realidade não deixei de sentir. Criei vínculo com os que zarpavam, não fazia ideia para aonde iam, sem conversar com eles, pressuponho que não sabia falar,  acredito que era um sonho duvidoso eu podia apenas olhar, a existência de som era zero. Sabe aquele quadro de pintura que você olha profundamente até vivenciar dentro da tela, sentir clima, perceber sensações diferentes, contudo, você não pode falar, só observar e era isso, isso decorre até em vida.
Eu estava em uma vida paralela, e teria que morrer para voltar nela, foi o que aconteceu quando acordei e andei pelo corredor da casa onde morava, eu tinha lá meus oito anos, o motivo por ter acordado é porque teria que enfrentar um obstáculo semelhante ao que senti perto da trilha de trem, não passei nem a metade daquele sentimento. Tinha uma janela no corredor, onde se via grandes prédios. Não sabia o que era a Metropolitana.

O Sonho

Em um lugar isolado no meio de uma mata que rodeava aquela bem longe mesmo casa velha de madeira onde poderíamos sentir um único sopro de vento, sua causa não ocorria pela passagem do trem _ impossível! _ esse sopro era bem diferente do que sentimos, não aliviava, ele tirava. Através dele pude ficar deitado balançando na rede que tinha em frente a porta de entrada, o silêncio tornava-se absurdo, os meus olhos sugavam aquela luz incandescente, _ como de costume de toda casa antiga_ que passava pela janela e nos cantos da porta. Naquele momento eu nada pensava. A rede balançava tanto que eu já nem tinha controle dela, não fazia sequer força. Nunca tive domínio sobre o que é meu realmente, o vento sempre acaba sendo dominante, no mundo real são as pessoas. Segurei firme achando iria cair, no lado direito percebi muitos galhos secos, não era algum tipo de plantação, nem um pasto para vacas, ali tinha um buraco, a casa estava erguida em uma certa altura do solo, imenso e cheio de espinhos, mais perigoso que aquele buraco era “o sonho” e a noite que não terminava.

Ao acordar caminhei até a janela do corredor enchi o peito de ar e fiz um suspiro triste, não levaria uma vida nem tão pouco tranquila, o mundo tomaria conta das minhas palavras, finalmente poderia chorar, _ eu era uma criança _ por não saber compreender o balanço da rede. Logo depois da janela havia uma escada onde cai e aprendi a subir. É uma das coisas que não se repetiria mais, eu poderia simplesmente deitar, encostar a minha cabeça no travesseiro e fechar os meus olhos para tentar voltar àquela realidade que em um piscar sumiria instantaneamente. Foi o mesmo quando entrei na casa, as pessoas com quem convivia no real estavam presentes, minha pouca visão não deixou ir além dos traços. Conscientemente sabia que eram eles que estavam cuidando de mim. 

A velha casa não apresentava boas estruturas. Era tão simples, em dias chuvosos balançava tanto até parecia que estávamos em meio ao mar, em tempos de frio a humilde casa nos esquentava.  Tinha cinco cômodos, cada parte tinha um castiçal com algumas velas acesas outras já derretidas, não havia um meio para que nós pudéssemos nos entreter, então eu ficava vagando sozinho o tempo todo, só aquela vida de acordar e ver tudo acontecer como se fosse uma obra-prima. Como sabemos nem todas as obras apesar de belas apresentam sentimentos de alegria, nos leva a mostrar o sentido do ser real, a dor. Guernica, seu manifesto da violência e das dores.

 A janela do quarto aberta, os sons do único vento atrás da casa rebatia as folhas da árvore seca, os grilos trinavam a música da noite, meus olhos procuravam detalhes de coisas que não me serviriam para nada. No entanto, tinha uma pessoa que segurava, eu não tinha muita liberdade para andar de um lado para o outro, ficava aos cuidados de uma mulher que possivelmente não seria boa influência para mim, nem para o meu irmão e irmã. Mesmo assim, eles estavam lá por algum motivo do sonho. Pensei que ela iria me curar da doença da infância comum em todas as crianças, nossos olhos passam a acreditar em tudo, menos na realidade que virá. Realmente, achei que ela seria importante para descobrir o motivo de tudo aquilo que estava acontecendo, foi só mais uma pessoa que deu ao solo três frutos, os mesmos decidirão suas vidas sozinhos seja no caminho onde se encontra água para ir crescendo e criar vínculos com outras pessoas ou na seca onde o destino não nos favorece, as escolhas foram surpreendentes.

 Começa um fim de tarde para aquela moradia cercada por um vasto matagal, um início apenas para observar aquele barulho poluidor, sua velocidade era tão baixa que nem perdia meu tempo para vê-lo continuava a balançar na rede. Todos iam saindo da casa, com bolsas, sacos e preparados para a mudança, eu crendo que era para ver o trem chegando, acenar para as pessoas na janela, foi ao contrário, meus íntimos estavam entrando lentamente sem dizer para aonde seguiam. Nada interessante, às vezes não temos e outras perdemos. Na inocência ficava esperando a sua volta, dos meus olhos regalados não caiam uma lágrima, ainda assim, derramava um tipo de cor ao meu redor, a cor mais quente que temos em nosso coração, nos sonhos, no interior, a cor da solidão, do medo, da tristeza, não estava escurecendo em frente a trilha. No fim, era só eu, as velas já derretidas, as luzes do interior não existiam mais, nem mesmo o único sopro de vento permaneceu, também levava a última folha daquela árvore seca, _ mal seja dito trem! _ tudo se transformou naquele sentimento.


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